Chasque atualizado em 6 / 08 / 2012 às 12:59 pm

Há 10 anos – A Tradição Gaúcha no Rio de Janeiro



por: Anna Carolina, da Zona Oeste, e Verônica Fraga

Existe um consulado gaúcho em plena Zona Oeste carioca. A área, uma das mais quentes da cidade, é o maior ponto de encontro dos sulistas que vivem no Rio de Janeiro. Isso porque o lugar serviu de abrigo para rebeldes refugiados da Revolução Farroupilha – a mais longa revolta brasileira. Foragidos do Rio Grande do Sul, eles fundaram, em 1857, a Sociedade Sul-Rio-Grandense. O lugar já foi bem badalado. Com sede em Santa Cruz, teve como sócios figuras ilustres como Pinheiro Machado, Villa-Lobos, Getúlio Vargas e João Goulart. Hoje, é referência para quem tem saudades do Sul.

Nas ruas, os gaúchos anônimos contemporâneos protagonizam cenas dignas dos pampas. Na semana da Revolução Farroupilha, em meados de setembro, eles fizeram uma festa onde mil peões e prendas (mulheres) devoraram, num único dia, nada menos que 150 costelas de boi em megachurrascos promovidos pela Sociedade Sul-Rio-Grandense.

Mais conhecida como Casa das Tradições, a Sociedade costuma dar festas para que os migrantes dos pampas possam reviver costumes e tradições da terra natal. Eles jogam bocha, tomam chimarrão e dançam fandango. Faz parte da paisagem local ver famílias, nos finais de semana, passeando de pilcha (indumentária típica) nas redondezas.

Cuia de Jango

“Aqui me sinto em casa. Tem até cinamomo e chorão (árvores características do Sul)”, diz o petroleiro aposentado Vítor Hugo, morador de Realengo. A cada dois anos, ele visita Passo Fundo (RS) para rever os amigos. Mas para matar a saudade do lugar, os encontros na sociedade são suficientes. “Basta colocarmos a pilcha para nos transformarmos no que éramos lá: gaúchos de verdade, tchê!”.

Américo Serpa, atual presidente da Sociedade, lembra com orgulho que tem guardada “com carinho” uma cuia de chimarrão presenteada pela família do presidente João Goulart. “É uma recordação dos momentos com Jango”, diz Serpa.

A sociedade funciona como clube, hotel e centro de atividades recreativas e culturais. Possui quadras poliesportivas, 21 apartamentos, cozinha campeira, salão de dança e até capela, onde são realizadas missas crioulas – celebradas ao ar livre desde os tempos da catequese.

Clóvis Corrêa de Barros, casado com uma gaúcha há 20 anos, não perde um desses encontros. “Quando minha mulher me falou deste lugar, fiz questão de virar sócio.” Depois de tanto tempo compartilhando as tradições do Rio Grande do Sul, Clóvis se define como um “paulistano com alma de gaúcho”. Fez questão de criar as filhas dentro dos costumes da cultura do Sul. Suas gurias – a acordeonista Beatriz, de 17 anos, a violinista Tabata, de 16, e a vocalista Lorena, de 14 – animam sempre as festas da Sociedade.

Um dos eventos da semana Farroupilha foi a tradicional costelada (churrasco feito na vala). Para se ter uma idéia da fartura gaúcha, em apenas um dia foi assado o equivalente a 75 cabeças de gado. Durante a confraternização, o responsável por servir a iguaria, Alídeo Macedo, revelou um dos segredos do melhor churrasco do Brasil: “A maciez da carne é proporcional ao tempo que ficou assando. Para ser degustada às 13h, foi posta para assar às 4h30m. É o controle do fogo que não deixa passar do ponto”, explica.

Vestidos a caráter – homens de bombacha e mulheres com os tradicionais vestidos rodados – os gaúchos saborearam alegremente a suculenta carne com arroz carreteiro. O papo acaba indo parar nas origens do prato. “O churrasco surgiu porque o peão saía pelo campo em busca de animal perdido e, quando batia a fome, eles matavam um boi e assavam na fogueira”, explicam os mais velhos. É por isso que ele é preparado por homens.

A união e a solidariedade dos gaúchos anônimos é o que sustenta financeiramente a entidade. Segundo Serpa, existe um sócio, por exemplo, que, embora nunca tenha freqüentado a casa, paga regularmente as mensalidades há vinte anos. “Ele se associou e, mesmo tendo voltado para o Rio Grande do Sul, fez questão de continuar apoiando os conterrâneos que permaneceram aqui”, conta o presidente.

Com o tempo, o pedacinho do Sul fincado na Zona Oeste criou raízes sólidas e conquistou a simpatia dos vizinhos. Os cariocas, claro, não perdem a chance de uma boa gozação. “Os gaúchos são gente boa, animados e descontraídos até mesmo quando a gente questiona a masculinidade deles”, provoca Márcio Fontes, morador de Santa Cruz. Sem perder o humor, Vítor Hugo responde: “Sou é muito macho, tchê!”.

www.sociedadesulriograndense.org.br
Endereço: Av. João XXIII, 5000 Santa Cruz – Rio de Janeiro RJ
Telefone: 33950623 / 24184265 / 25332026

Chasque publicado no sítio Viva Favela em 03/10/2002:
www.novo.vivafavela.com.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=87&infoid=23910&from_info_index=1571



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